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terça-feira, 10 de setembro de 2019

A alegria sólida dos ladrilhos hidráulicos


Fonte: Ladrilhos Hidráulicos São Francisco

            Houve época em que a criatividade estava muito em alta. Eu não falo apenas em usar efeitos especiais para dar cara “nova” a algum tema preexistente, como faz o cinema de hoje. Me refiro a originalidade mesmo, de alta qualidade e em abundância, tudo isso oferecido de forma tão generosa, que a cornucópia criativa parecia não ter limites. Houve alguns exageros, como os flamingos cor-de-rosa, mas mesmo eles eram muito bonitos. Tão bonitos que voltaram à moda de onde nunca realmente saíram.




            Tudo começou nos loucos anos 1920 a foi até os neoloucos anos 1970, estes sim, uma década de sanatório geral. Mas o longo apogeu foi dos anos 1940 aos 1960, três décadas de tamanha profusão de proficuidade de engenharia e design, que as pessoas pensaram que nunca acabaria, e assim não se importavam em simplesmente descartar o que fora feito há não mais do que cinco anos antes. Em determinado momento, no início dos anos 1970, começaram a se cansar de tantos estímulos visuais e começaram a focar um minimalismo árido, que em nada lembrava o minimalismo criativo dos anos 1960. A humanidade estava se preparando para viver no espaço, mas acabou descobrindo que vivia no vazio.



            Naquela época pensava-se que ninguém sentiria falta daqueles carros que “beiravam o barroco”, daqueles “vestidos espalhafatosos” e pouco práticos, daqueles “filmes melosos” e daquelas “casas cafonas”. Para começo de conversa, barroco é um plastimóvel descartável e desproporcionado, cheio de vincos desencontrados e com cara de quem está com diarreia; espalhafatoso é um jeans de mil reais, cheio de penduricalhos e com mais rasgos do que a Fome dos cavaleiros do apocalipse; “Meloso” diz quem nunca assistiu a um filme clássico, eram violência e romances tórridos que hoje renderiam censura etária; Cafona é pagar por um cubículo mal acabado de 10m² mais do que antes se pagava por uma casa de 250m² mais o quintal, só para posar de moderno e preocupado com as causas, o que a maioria na verdade NÃO É.


Fonte: Amorim Polimentos


            Pois as pessoas começaram a sentir sim, falta de tudo aquilo que fora desprezado. E eu não falo só de hipsters amargurados e saudosos por épocas em que não viveram, pessoas que viveram tudo aquilo passaram a pesar os prós e contras e, que tristeza, perceberam que eram felizes e não sabiam. Aumentava a tristeza ver tudo o que fez parte de suas vidas ser literalmente destruído por diversão, e esse sentimentalismo só aumentou a dor e o amor pelo antigo. Eles ainda se lembravam de todas as dificuldades e limitações sociais, não floreavam como alguns insistem em dizer sem irem ter com as fontes. Meus amigos, quando eu era criança, não tinham menos de quarenta anos.



            Aqui adiciono meu testemunho às minhas pesquisas. O mundo mergulhava lentamente em uma era de depressão que ainda perdura, apesar das pequenas convulsões de luz e cores dos anos 1980. Os jornais e os artistas, a quem caberia ajudar as pessoas a atravessar uma fase que seria apenas de recolhimento, lucraram e ainda lucram horrores com a desilusão coletiva. Onde a imprensa é livre, ela fez essa besteira, onde não é só havia mensagens de esperança e louvores ao regime. Enfim, essa aridez se refletia também nos productos e serviços, com uma despersonalização coletiva cada vez maior, tudo isso se retroalimentando em um leminiscato depressivo; e todos achando isso normal… quer dizer, nem todos.


Fonte: Patrimônio Belga no Brasil


            Algumas pessoas olhavam para trás e viam épocas com muito menos recursos esbanjando mais vitalidade em cada indivíduo, do que grupos inteiros da época vigente, mas pensavam que eram só loucos solitários, que queriam trocar pisos modernos por ladrilhos hidráulicos decorados dos anos 1930… até que um dia eles descobriram que não eram tão solitários assim. Loucos, talvez, mas não solitários. Descobriram que feiras de antiguidades não eram freqüentadas por bisavós acumuladores em fim de vida e, para esta história não ficar sem fim, a cultura retrô-vintage estourou neste início de século, se apoiando justo na estrutura contemporânea da mídia que ainda nos deprime.


            Os brechós, que começavam a proliferar, não eram mais o suficiente, agora as pessoas queriam suas casas TOTALMENTE no espírito de época. Os eventos de carros antigos mostraram que esses saudosistas que não viveram lá, têm mais poder aquisitivo do que os preconceituosos julgavam ter os clientes de memorabilia, então artigos modernos com estilo retrô voltaram aos catálogos, inclusive eletrodomésticos; claro que cobrando o preço da escala de produção e da qualidade exigida por seu público. Isso incluiu o mercado de cerâmicas, em especial o ladrilho hidráulico.


Fonte: Patrimônio Belga no Brasil


            De início era apenas uma moda, ou um meio de repor peças que não se fabricam mais, já que a produção é essencialmente manual, por isso é caro. Não mais caro, porém, do que os pisos de pedra que substituiu nos anos 1850, quando a técnica de pisos de cimento começou a se disseminar. Apesar de não ser barato, pode ser reproduzido, ao contrário das pedras e, mais do que isso, pode receber estampas que duram décadas, até séculos; vai ver a durabilidade de um porcelanato com a carga de uso que os ladrilhos instalados no pré-guerra suportam até hoje, vai.



            Após a Grande Depressão, que se alastrou até a segunda guerra, o surto de criatividade e esperança de que falei fez proliferar os ladrilhos com temática geométrica, que ainda hoje são tão modernos quanto elegantes, e estão em grande quantidade nos prédios históricos de Brasília, usados principalmente como revestimento de paredes. A quem tiver a chance de visitar a capital do país, asseguro que será uma grata surpresa a cada metro visitado, do tipo que revela mais detalhes e riquezas quanto mais perto se chegar. É um desbunde ver aquela arquitetura pós-moderna usufruindo do aconchego e do charme familiar que os azulejos e ladrilhos decorados oferecem. Mesmo nos tons mais sóbrios há uma explosão de vida e esperança que encanta principalmente as crianças.


Fonte: Carocim


            Não faz muito tempo que os bares e cafés mais reservados e personalizados, começaram a usar mosaicos de ladrilhos (às vezes imitações ou meros papéis de parede, pois são caros) na decoração principal, especialmente atrás dos balcões de atendimento e ao lado das mesas internas. Aqui geralmente em tons terrosos, dando um ambiente mais bucólico e rústico, que ajuda a acalmar e manter o cliente mais tempo no estabelecimento, sem o uso de estimulantes de baixo-ventre e sem anular a noção de tempo.



            No decorrer desse revival, marcas que estavam restritas a nichos se encorajaram a ousar, e o que eram apenas lojas de demolição, se tornaram fornecedores de mercadoria original de época… e os centavos que pagavam por um pacote, não levavam mais nem uma lasca de uma peça. Aliás, peças lascadas ou rachadas, antes destinadas ao descarte, agora são usadas para dar um aspecto mais autêntico, como se estivessem naquele piso ou parede há décadas, cheias de histórias para contar.


Fonte: Carocim


            E aqui vem a principal causa do saudosismo, não me refiro só à robustez e aptidão às cargas mais pesadas de trabalho. O ladrilho hidráulico, como a cerâmica autêntica e as pastilhas, dá vida ao piso. Algo que aquele vazio quadriculado, fácil de arranhar e quebrar, não oferece. São donairosos motivos que podem tanto formar amplos e elegantes padrões repetitivos a perder de vista, quanto lúdicas colchas de retalhos de cimento, que arrancam sorrisos dos mais sisudos, ou melo menos um traço a menos de amargura nos cabisbaixos. Um piso vazio, cercado de paredes vazias, com uma decoração vazia, é uma armadilha letal para depressivos. Um pouco de cores e formas não faz mal nem ao mais tradicional dos cavalheiros ingleses.



            Não é de se admirar que esse mercado emergente e sólido chame a atenção de mais gente, a ponto de já haver quem faça projectos personalizados para quem se dispuser a pagar. Ladrilhos temáticos não são mais novidades, especialmente os alusivos à times de futebol, já há quem os ofereça como productos de linha da empresa. O que me faz lembrar, algumas calçadas em Goiânia ainda têm ladrilhos hidráulicos com estampas das empresas que ocupavam as áreas correspondentes… durabilidade pouca é bobagem. Durabilidade e versatilidade, já que toda essa resistência real os torna aptos a constituir desde artesanatos, até pisos de garagens de caminhões.


Fonte: Casa de Valentina


            Abdicando da facilidade estéril e depressiva, que só deveria estar presente em ambientes sanitários, e olhe lá, quem opta pelos clássicos atemporais da decoração de ladrilhos dá motivos para as pessoas permanecerem em casa, simplesmente porque as faz se sentirem melhor no ambiente. Há aconchego, compreendem? São coisas que uma vez instaladas as peças, os moradores obtêm de graça, pelo resto de suas vidas, angariando a simpatia dos mais jovens, que se queixam e argumentam justo a monotonia familiar para não permanecerem. As crianças, é claro, têm à disposição um brinquedo forte e durável à sua disposição. É um dos maiores bônus das coias antigas, elas geram empatia, formam e fortalecem as ligações que são muito úteis em épocas de crise, como a adolescência… Eu sei, meus amigos, é fogo, dá vontade de arrancar os cabelos, mas é uma fase, em dois ou três anos isso passa.



            O ônus do cimento, que às vezes se mancha com relativa facilidade e não é tão fácil de limpar, é compensado pela durabilidade e praticidade de substituição, bem como pela facilidade moderna de ser impermeabilizado. A espessura, por ser de produção artesanal, também não é tão uniforme, necessitando de ajustes no assentamento para manter o piso nivelado, mas aqui terminam as desvantagens. Quem já precisou trocar um piso moderno, sabe dos impropérios que a vizinhança indignada e ávida por silêncio, é capaz de proferir. Mesmo com os contras, vocês AINDA podem ver em muitas cidades, esses ladrilhos instalados em calçadas públicas, resistindo aos transeuntes e até mesmo a veículos pesados por décadas a fio. Mesmo sendo um material poroso, que em princípio absorve mais sujeira, ainda exibem cores vivas e encantadoras, se destacando do resto da paisagem, dominada por esterilidade espelhada e porcelanato (este sim) cafona impróprio para pisos externos.


Fonte: Archduo


            Aqui vocês já devem ter percebido o tipo de gente que aprecia esse material, é aquela que gosta de cultivar relações e não joga pessoas fora, por não terem satisfeito suas expectativas; em suma, é para quem quer amadurecer e arcar com a maturidade. Coisas antigas ajudam a aprender isso, de uma forma mais bonita e agradável do que a vida ensina. Gente que percebe que as dificuldades do cotidiano, para quem amadurece, só têm a acrescentar. Mas a recompensa vem. Apesar do peso e da rusticidade que os ladrilhos têm individualmente, em conjunto eles têm a leveza que a brutalidade dos anos não leva. Assim como nem a destruição em massa extinguiu aqueles carrões maravilhosos da era de ouro… e eles começam a despertar interesse novamente.

Fonte: Viva Decora


            Ficarei devendo a vocês um artigo sobre as charmosas e carismáticas pastilhas, que ainda figuram em fachadas e podem ser usadas até como bijuterias. Está na fila, mas asseguro que escreverei a respeito. Para mais, separei alguns links úteis a respeito.

Empresas: Carocim (França), Cemitério dos Azulejos, Museu dos Azulejos, Refinare, Casa de Valentina, In-Ex, Ladrilart, Ladrilar, Viva Decora, Patrimônio Belga e Pisos Antigos.

Artigos : Tua casa, Conexão Decor, Elegância das Coisas, Fundação Athos, Brasília Concreta, Gazeta do Povo e Homif.

Vídeos: Instalação, Como se fabrica.

terça-feira, 26 de abril de 2016

A falência do design - os carros


  Não foi uma só, foram várias vezes em que li e ouvi gente reclamando da falta de interesse das crianças pelos automóveis. A questão chegou a suscitar uma nova linha de catastrofistas, os que dizem que o fim do automóvel está próximo. Um teste recente nos Estados Unidos demonstrou isso, garotos na primeira infância se mostraram indiferentes aos carros apresentados, à exceção do Nissan Leaf. O  eléctrico puro da Nissan é o plug-in mais vendido no mundo, de cara ele chama atenção pelo desenho completamente diferente dos outros, alguns elementos chegam a remeter aos carros populares dos anos sessenta. Aliás, houve época em que a Nissan era chegara ao design retrô!

  Há cerca de dez ou quinze anos, as crianças conseguiriam identificar seus preferidos sem maiores dificuldades, mas isso porque houve uma tentativa de retomar a personalidade estética, como a linha Chrysler de então, que parecia uma linha de naves espaciais. Há trinta anos seria um esforço desnecessário, mesmo com desenhos bem mais simples do que de outras épocas, era fácil distinguir um Mercedes-Benz de um Volkswagen, um Ford de um Chevrolet, uma Honda de uma Yamaha. Hoje vivemos uma era de medo de fracassar, mesmo o que parece ser diferente, nada mais é do que uma caricatura do que já existe. carro tem que ser agressivo, cheio de penduricalhos feios e inúteis, de preferência ser um (arg) SUV de péssima aerodinâmica e ausente de personalidade. Quem já viveu entre Veraneio, Rural Willys/Ford e a Kombi jarrinha, sabe do que estou falando.


  Não é de se estranhar que petizes em tenra idade arreganhem sorrisos ao verem um DKW passando, mesmo o Fusca, ainda com mais de dois milhões de exemplares rodando pelo país, provoca mais comoção do que um carro "fodão badass" com rodas desnecessariamente grandes, grades exageradas e sem qualquer harmonia estética, enfim. Os carros, especialmente populares, são pouco mais do que cópias e colas de seus concorrentes. A argumentação da segurança e das conveniências de conectividade, estão atraindo quem não dá a mínima para carros, quem gosta deles entra em um Corcel 1976 sabendo dos riscos que corre. Já consultei um engenheiro mecânico, um ex-professor de tecnologia mecânica e dá sim para colocar airbag e toda a parafernália electrônica em um carro antigo, os gastos não superariam o que muita gente desembolsa para arruinar um clássico apto à placa preta.

  E por falar nisso, algumas montadoras estão dando o tiro no pé de decretar que os acidentes podem ser eliminados, se as pessoas forem simplesmente conduzidas por carros autônomos. Não nego que em caso de embriagues ou problemas de saúde, é bom contar com esse recurso, mas simplesmente tirar o controle de seu destino de suas mãos, meu amigo, vai contra o maior sentido de existir de um automóvel, que é a liberdade. Não vou falar aqui, não agora, dos danos que essa fomentação da preguiça e do individualismo pode causar, porque deixar-se controlar por um robô vai desestimular até olhar pela janela, em caminhos percorridos diariamente. E lamento informar, a perfeição não existe no orbe dos homens, cedo ou tarde a máquina falha, para de funcionar ou te leva para o lado errado, como para cima de um poste... Ou de uma criança na calçada. Basta dar pau, o que já é comum em nossos carrinhos control+C-control+V. Diga-se de passagem, os comerciais de carros seguem a mesma idiotice do design, ou da falta dele. Ah, sim, e a Ford perdeu um potencial cliente ao declarar que não quer tiozão dirigindo seus carros, motivo pelo qual renomeou o Focus sedan com um nome idiota de apelo"jovem".

  No Brasil há ainda o agravante da escassez de cores, que concessionários impõe para poupar gastos com estoques, divulgando que essa ou aquela cor é mais fácil de revender. Fica estranho ver caminhões saindo das fábricas com cores vivas, bonitas e irradiantes, enquanto carros de passeio se concentram em tons de cinza. Ninguém era depreciado por andar em um Opala verde intenso. Houve época em que a Chevrolet oferecia até pintura em dois tons, extinta em 1989, na última remodelação do Opala. Preciso dizer que esse opcional tornou-se um clássico? Pois já disse. Alguns tons de amarelo eram tão escandalosos, que doíam nos olhos. Cor viva ser exclusiva de falsos esportivos e (arg) SUV de araque, é tendência tão recente quanto imbecil. Vejam só, carros maiores têm cores fortes, os pequenos, que mais precisam ser vistos no trânsito, têm quinhentos tons de cinza.


  E não é só no exterior, o interior dos carros era completamente diferente dos concorrentes, muitas vezes uma marca tinha um estilo próprio para cada família de carros. Era fácil identificar se havia entrado em um Chevette, um Kadett, um Monza ou um Opala; todos da mesma marca. Bastava abrir os olhos e todos os elementos de estilo saltavam aos olhos. Tente fazer isso nos Chevrolets nacionais de hoje. Imagine as linhas Fiat Volks da época, que tinham carros de várias épocas e concepções dividindo as mesmas fábricas! Era um desbunde, um colírio sobre rodas!
  Sempre foi um problema localizar um carro em um estacionamento grande, como o de um shopping center, mas hoje é um verdadeiro pesadelo. É como se o mundo fosse preto e branco com baixa resolução.

  Em parte pé por isso que os chineses estão comendo fatias do mercado ocidental. Os modelos vendidos aqui usam plataformas de carros ocidentais, com todas as normas de segurança que cada país exige, só que sem os custos de desenvolvimento de um automóvel novo. Se é para comprar uma coisa sem personalidade, que vai durar pouco e se rasgar só de encostar em um carro dos anos oitenta, não há dúvidas em escolher o mais barato. Se a tal "racionalidade" é tudo o que importa, então o preço é um argumento mais poderoso do que conforto e prazer de dirigir... Aliás, ir de ônibus é um argumento melhor... Vida cinzenta! Melhor morrer feliz, sério!

  Um amigo, dono de um belo Escort XR3 conversível, creio que ano 1986, que chama atenção por onde passa, contou de dois episódios que vão arrepiar quem decora os discursos dos fabricantes e dos engenheiros de escritório com ar condicionado:
  No primeiro um Hyundai HB20 bateu na lateral e saiu esfregando no Escort. Ele saiu para ver os prejuízos e só encontrou o friso lateral torto, com uma massa de tinta branca. O HB20 teve sua lateral completamente rasgada. Descobrir essa fragilidade tão grande, que no cotidiano pode resultar em ferrugem rápida por conta de arranhões mais profundos, comuns na vida útil de um carro, foi realmente revolucionário.
  No segundo foi com um Novo Fiat Uno. O sujeito simplesmente ignorou a preferencial e avançou, meu amigo o pegou em cheio. Apesar de todas as barras de proteção, estrutura reforçara para a sua segurança e tudo mais, ele afundou as portas do Fiat, a frente do Escort, que na época do lançamento era considerado frágil, ficou praticamente intacta. E a falta de airbag não fez diferença... Incrível, não? Ele saiu ileso, feliz e saltitante por não ter comprado um "plastimobile" com pompa e apelo de testes de colisão que, francamente, doravante vou confiar pela metade.


  Estão entendendo por que o antigomobilismo, como toda a cultura retrô e vintage, está avançando tanto e com tanta força? Ninguém em sã consciência que viver em uma bolha estéril, protegido de tudo, de todos e da própria vida. O que vivemos hoje é algo pior que os pesadelos de Audous Huxley. Nós parecemos viver em uma era de tolerância e progressos pessoais, mas em nenhuma outra época um fabricante disse que o problema do carro é você, que você deve ser substituído em vez de educado e bem treinado. Em nenhuma outra época os preconceitos, os tabus,  o louvor a ditadores, a agressão a quem pensa diferente foi tratada abertamente como algo legítimo; até os anos noventa, gente assim era chamada de idiota em público. Hoje é só defensor de suas verdades bla-bla-bla e mimimi. Hitler usou "suas verdades" para justificar o que fez, viu!

  Está tudo uma droga, mas com rótulo de progressismo e esperança, para eles é o que vale.


  Não é de se admirar também, que as grandes montadoras americanas tenham voltado a fabricar peças, com tecnologias e padrão de usinagens modernos, de alguns de seus clássicos. Já é possível montar com peças novas e de fábrica, um Ford 1932, um Mustang Boss 1967, um Challenger 1969,um Camaro 1969, os gloriosos Bel Air de 1955 a 1957, entre outros. Pode comprar peças, ou encomendar o carro pronto, personalizado ao teu gosto. Custam cerca de cem mil dólares, os carros prontos para rodar, mas vendem, e vendem bem. Parece loucura, não? Mas não é. é a troca de uma cela segura pelos riscos de uma vida feliz... Nossa, que piegas! Adorei esta parte!


  Há ainda as tradicionais fábricas de kits, réplicas e estilizados, que vendem carrocerias de fibra de vidro ou carbono, além das de alumínio. O preço do carro completo é o mesmo dos clássicos, mas aqui o grau de personalização é muito maior. Pode-se comprar um Auburn ou Bugati boat tail com motor moderno, Chevy, Ford, Mopar ou até Maserati; este talvez o único motor italiano que eu respeito. Se as grandes montadoras não derem nos fundilhos dos covardes dos departamentos de marketing, serão facilmente substituídas a longo prazo por esses pequenos fabricantes!

  Finalizando, tenham na ponta da língua uma resposta pronta e seca para os paspalhos que não só vivem nessa bolha de aparente felicidade, mas querem te obrigar a entrar nela e detratam tanto teu modo de vida como o teu carro antigo: NINGUÉM ESTÁ TE OBRIGANDO A ENTRAR NO MEU CARRO. FIQUE NO SEU E NA SUA. Pode parecer mal educado, mas as pessoas estão desaprendendo a ler entrelinhas e respeitar negativas educadas.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A cultura vintage nascente em Goiânia

A bela e nascente juventude vintage goianiense.

No último domingo foi plantada uma sementinha vintage na amargurada cidade de Goiânia. Outrora rica em art déco, deliberadamente abandonada e vendida à especulação pela prefeitura, a capital teve um evento que pode ser o embrião dos festivais vintage que há nos Estados Unidos e na Inglaterra. Claro, não espero que consigamos toda aquela magnitude, mas vier a ser tão bem sucedida como as muitas feiras que povoam os fins de semana da cidade, estaremos no lucro.


O Segundo Encontro de Bicicletas Antigas de Goiânia, feito com a colaboração do Volks Clube de Goiânia, e os competentes e simpáticos amigos Sérgio Anos Cinqüenta e Sérgio Fuck The Factory, teve um brilho que denunciou as ambições do evento.

Além das Göricke, Philips, Monark, Caloi e outras bicicletas de marcas quase desconhecidas em terras nacionais, de encher os olhos, muitas da época em que bicicletas eram emplacadas. O mercadinhos de pulgas e antiquários levou uma variedade e qualidade de peças que até então não se imaginava haver na cidade. Belezas como um elegantérrimo rádio Philco valvulado, estavam à dispósição para apreciação, e alguns até para venda. O rádio, para quem ficou com água na boca, lamento, mas encontrou quem pagasse lá mesmo os R$ 850,00 pedidos pelo Matias. Mas havia muito mais, com ele e com outros expositores.

Um dos charmes arrebatadores foi um mini bar rockabily montado pelo Fuck The factory. Estilo anos cinqüenta, como os bares americanos de beira de estrada que atraíam
caminhoneiros e motoqueiros renegados naquela época, dando muito pano pra manga em Hollywood, tudo feito com o capricho de quem sabia o que estava fazendo.  No balcão havia a grade de um Galaxie 1969, para dar o ar de bar estradeiro, na pequena estante atrás, belas peças de época, como um rádio da segunda metade dos anos cinqüenta, um abajour de época e um gramophone maravilhoso, ao lado dele um tímido e singelo toca-discos portátil, do fim da década. A quantidade de detalhes simplesmente não caberia em um só texto, mas acredito que vocês já têm uma idéia do que eu presenciei. Se fez sucesso? Com venda real de bebidas, as mesinhas ficaram todas ocupadas. Vejam só, venderam bebidas e nem por isso houve confusão! Ah, esse mundo de hoje só é moderno no verniz, sob este é apenas uma reedição da antiguidade bárbara.

Em frente ao bar, um festival de duas rodas de fazer infartar os amantes de motos antigas. Três belas Lambrettas, uma indefectível Zundapp, Duas robustas BMW com transmissão por cardã, uma rara Matchless inglesa, a clássica e perigosa Yamaha 650, a furiosa Honda 750 Four "Sete-Galo", três singelas Garellis dignas de placa preta, além de gente passeando de bicicletas clássicas pela área do Cepal. Os selvagens das motocicletas surtariam com a cena. O que mais impressionava os neófitos, é que todas chegaram e foram embora pela força de seus respectivos motores, enchendo o ambiente de uma sonoridade que o excesso de rotações por minuto das motos modernas, nos nega todos os dias.


Com o tema "rockabily", o ambiente foi preencido com músicas de época, dos anos cinqüenta e sessenta, estrangeiras e nacionais, até antes da Jovem Guarda. Diga-se de passagem, o volume era bem confortável, na medida para todos ouvirem as canções sem ter que gritar para ouvirem uns aos outros. Ah, como tem gente precisando aprender esta regrinha simples de civilidade! Gente que incomoda o bairro todo e se faz de vítima perseguida.

Todas as músicas eram dançantes, alegres, que estimularam os jovens presentes, inclusive a adorável filha do nosso barman, vestida a caráter em seu vestido preto de bolinhas. Ela, uma amiga de saia azul rodada e dois rapazes com cabelos ala James Dean.

VENDIDO!
Carros antigos também, é claro, alguns no estilo rat-rod, vomo um belo Opala coupé e um imponente Galaxie 500. Além, claro de Fuscas, uma Variant, Opala Comodoro com capota Las Vegas, Coupé, Ford Corcel II, Dodge Dart, um raro Corvette Aniversary 1978, um impressionante Dodge Custom Royal com suas marcas temporais, duas gerações de pic-ups Ford F-100, duas Kombis Jarrinhas, um desbunde que ninguém esperava, mas aconteceu.

Incidentes? Nenhum. Nenhum mesmo! Todos os que foram querem voltar à próxima edição, cuja temática será "Elvis Presley", que chegará em em Cadillac conversível cor de rosa, que compareceu ao evento. Compareceu e roubou as atenções, foram dezenas de visitantes e expositores fazendo fila para uma photographia a bordo. Alguns detalhes denunciavam a idade, mas nada que lhe tirasse a beleza opulenta, nem que um trato não resolva. O funcionamento do carro e sua capota, estava impecável, tanto que ela foi baixada com ele em movimento, no meio do trânsito.


Nem a dor de cabeça que o calor vulcânico causou, ofuscou a satisfação que o testemunho naquele evento me proporcionou. Com toda certeza, os participantes e visitantes menos sensíveis ao clima, simplesmente amaram tudo aquilo.
Uma linda e robusta Göricke.

A quantidade de crianças absolutamente encantadas com o ambiente e seus detalhes, era de se perder a conta. Diante das bicicletas e velocípedes que poderiam ter sido de seus avós, talvez até bisavós,  elas ficavam extasiadas, querendo levar para casa. Pena, a maioria era só para exposição mesmo. Apesar dos sustos que os petizes sempre dão, disparando à menor distração de seus pais, nenhum se machucou. Havia adultos atentos, muitos adultos que viam neles os seus próprios filhos, até netos.

Os resultados práticos, que financiam nossas extravagâncias, foram satisfatórios, a ponto de todos terem dito que quem não foi, perdeu; não só dinheiro e não só entretenimento, mas ambos. Fisgar o cérebro, o coração e o bolso ao mesmo tempo, é uma das faculdades mais desenvolvidas da cultura vintage. Esperamos que com este evento bimestral a história se repita, e a circulação de capital faça seu trabalho. Ah, os tempos em que o dinheiro trabalhava para comprar coisas e serviços, em vez de comprar promessas futuras de mais dinheiro... A bolha imobiliária americana deu a lição.

Tudo durou das dez ás treze horas, tempo estimado pelos organizadores para um evento coeso e de acordo com a estrutura disponível. A conta fechou redondinha, mas os próximos vão demandar um pouco mais de investimento, porque a propaganda boca a boca começou lá mesmo. Só a estrutura do lugar poderia ter sido melhor, mas é o máximo que um evento cultural sem potencial político consegue do governo. Conseguir aquele espaço já foi uma vitória suada!

Caros leitores, foi lindo! A juventude no que ela tem de bom estava lá, prestigiando e se contaminando com a infecção vintage, para a qual não há cura. Espero sinceramente que meus amigos vintagistas de outras partes do mundo, um dia possam pegar uma publicação especializada e com um festival vintage de Goiânia.

Se vocês não imaginam dois jovens cheios de testosterona cumprimentando a namorada um do outro, sem sair briga, é porque nunca foram a um evento de antigomobilismo e memorabilia, como foi este. As pessoas passam a ter outra noção do que é liberdade, e usufruem dela como nenhum viciado em permissividade consegue da sua. Tudo o que os anos cinqüenta tiveram de bom, estava em pequenas doses naquele pequeno evento. Pequeno, mas indemovível em sua seara de crescer, florescer, frutificar e reflorestar Goiânia com o passado de beleza e esperanças no futuro, que nem faz tanto tempo que foi amputado.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A Era do Rádio não acabou

Fonte: http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-457926333-raro-zenith-4v31-_JM


Houve época em que imagem em 3D era truque de óculos coloridos de cinemas, que praticamente não existiam no Brasil. Época em que cinema levado à sério, era só em preto e branco, cinema em cores era para anúncios comerciais ou para desenho animado. Nessa época, a mídia era escrita ou sonora, nada além disso.

Se aos mais jovens, que nasceram filmados pela câmera de um celular, este cenário parece aterrador, para a época era um grande feito tecnológico. Na realidade, muito desta época ainda persiste. Apesar de todas as ameaças, o rádio vive, vigora e ainda prospera.

Anos 20. fonte: http://www.vintageperiods.com/
Mas, ao contrário de hoje, até os anos sessenta ele era quase onipresente nos lares brasileiros. Antes de ser quase que só importado, feito por mão-de-obra semiescrava, aparelhos Admiral, Crosley, Philips, Philco, Motoradio, Cineral e outros, se encarregavam de comunicar, informar e entreter o público. Vocês não imaginam o espetáculo que é um Motoradio de sete faixas, ele consegue captar com som cristalino, praticamente qualquer estação de rádio de qualquer parte do mundo; já ouvi conversas e músicas em árabe e até japonês, em um desses. E, diga-se de passagem, a transmissão chegava cristalina como muitos sons modernos não conseguem de estações de dentro da cidade. Ainda hoje se fabrica o aparelho, vale à pena ter um.

Assim como os computadores, o rádio nasceu valvulado. Era interessante ligar um, porque as válvulas são como lâmpadas incandescentes, elas iluminam e esquentam muito. Ao contrário dos rádios transistorizados, os valvulados demoram um pouco para funcionar, porque precisam ficar quentes, igual ferro de passar roupa. No verão ficava-se mais distante, no frio ia todo mundo para junto do rádio. Em algumas regiões, as válvulas eram chamadas de velas; como em Goiás.

Crosley Gigante, anos 30. Fonte: http://www.cincinnativiews.net/wlw_radio_tv.htm


Claro que o consumo de energia é tão grande quanto o calor gerado. Tanto que os primeiros rádios automotivos, também valvulados e muito caros, não podiam ficar ligados se o motor também não estivesse, sob o risco de se perder a bateria. Se ela perder mais de um terço da carga, há o risco de nunca mais funcionar direito. Eram acessórios opcionais dos carros mais caros, como Buick, Cadillac e Lincoln. Mas também, na época, tamanho era documento; rádio grande, consumo grande, mas também alcance grande e som mais limpo.

Eu me lembro desses rádios, não os automotivos, praticamente só existentes nos Estados Unidos, mas convivi com os domésticos. Peças muitas vezes belíssimas, que agradavam mesmo quando desligadas. Por isso mesmo havia mais cuidado estético, na hora de comprar, afinal era algo a ser apresentado às visitas, e que os donos da casa veriam facilmente todos os dias.

Por precisarem ser bem grandes e pesados, acabavam servindo de mobília estética. Por isso eram feitos de madeira bem trabalhada, geralmente serviço de carpintaria, com as telas feitas de tecidos bonitos e resistentes, que ficavam iluminadas assim que o rádio esquentava. Um espetáculo. Caro, mas um espetáculo.
Foram décadas para com o surgimento da transmissão digital, se conseguir igualar a qualidade sonora de um bom rádio à válvula, embora nem sempre a qualidade se mantenha... Lembrem-se, pelo baixo custo a qualquer custo, muitas marcas se recusam a saber sob que condições suas encomendas são fabricadas. Não se pode pedir que um funcionário maltratado faça um serviço perfeito.

O ponto fraco de um rádio valvulado, é justo a fonte de sua maior virtude; as válvulas. Por esquentarem muito, acabavam trabalhando como um fusível, que se queima quando passa energia demais. Os mais abastados tinham estoques de válvulas em casa, pois seus aparelhos acabavam ficando ligados o dia todo, por tabela seus componentes duravam pouco. Mas o rádio em si, que tem bem mais componentes do que as válvulas, é conhecido também pela sua durabilidade, que costuma ser maior do que a de seus proprietários.
Mas mesmo sendo relativamente caro, se comparado às porcarias feitas para não terem conserto, o rádio de válvulas foi um democrata. Havia desde os (relativamente) portáteis, que tinham uma só vela pequena e um autofalante miudinho, até os armários de sala, com quatro grandes e caras válvulas de vidro ou mais, com alto vácuo no seu interior, que corroborava para o alto preço. Mesmo os antigos rádios transistorizados, feitos para terem conserto em caso de avaria, costumam zombar do tempo e brindar o ouvinte com um som cristalino.

A gloriosa e saudosa ERA DO RÁDIO foi o divisor de águas, entre o que restava do século XIX, e o pleno século XX. Ela permitiu que qualquer povoado, nos rincões mais distantes e esquecidos, recebesse notícias do mundo quase que em tempo real. As ditaduras se esforçavam em censurar, não era à toa.
Rário-Relógio Generel Electric 1957. Fonte: http://rosalindwent.blogspot.com.br/2012/05/haul.html

Foi a época em que o racismo começou a ser mal visto pelas pessoas, mesmo as que eram racistas, porque começou-se a descobrir que aquela voz ma-ra-vi-lho-sa, aquelas palavras encantadoras, podiam ser de um negro ou um índio. É famoso o caso em que cerca de setenta mocorongos da ku-kux-klan cercaram uma estação, onde um negro apresentava um programa ao vivo, e levaram uma taca dos mais de trezentos jovens que estavam no auditório. Eu queria muito ter uma máquina do tempo, só para poder ver a cena.

Também é famoso um dos maiores episódios de histeria coletiva da história recente, em 30 de Outubro de 1938. A Columbia Broadcasting Radio Network estava transmitindo a narração da novela “The War of The Worlds”, e foi obrigada a desculpar-se. O narrador fez tudo com tamanho afã, foi tão convincente, narrando como em boletins jornalísticos, que as pessoas realmente acreditaram que a Terra estava sendo invadida por marcianos. Detalhes do episódio, ver aqui.

Murph Rário Transistor 8 1960s, Fonte: http://www.nzmuseums.co.nz/

A capacidade de coesão social do rádio transformou-o em um poderoso intermediador, a ponto de tradições terem nascido em sua função. Uma delas, mais breve do que o desejável, foi a das Rainhas do Rádio, que teve em Dalva de Oliveira, Marlene e Emilinha Borba suas mais gloriosas representantes. Precisava ter voz para fazer vibrar aquele microphone rudimentar. Foi o melhor embrião para os programas televisivos de auditório. Havia mais rivalidade entre marlenistas e emilistas, do que entre as duas.

Sony TR-1000, anos 60. Fonte http://www.televideo.ws/

Como os carros e toda a memorabilia, os rádios valvulados e os primeiros transistorizados, ficaram por muitos anos servindo apenas de ferro-velho. Os teimosos que insistiam em manter os seus, encontravam diviculdades para mantê-los, mas não se desfizeram e chegaram a acreditar, cada um, que eram os únicos no mundo a ter um daqueles. Mas havia muita gente que guardava os aparelhos, especialmente donos de velhas oficinas, onde os antigos donos deixavam os rádios, e de onde nunca mais buscavam. Vale a regra da sapataria: Se não buscar a encomenda até trinta dias depois do conserto, a peça será vendida para cobrir os custos. Só que quase ninguém queria saber daqueles rádios velhos, ainda mais com os novos, leves, econômicos e resistentes rádios transistor chegando às lojas. A obsolência foi rápida, a partir dos anos sessenta, mas a indústria de reposição e os teimosos, conseguiram preservar os rádios valvulados.

O advento do rádio-relógio, embora no começo parecesse um capricho, já que já existiam despertadores, acabou por manter a cabeça do rádio acima da água, durante o tempestuoso ataque da televisão. E acordar com boa música, convenhamos, é muito melhor do que com uma campainha estridente, que incomodará a casa inteira.



Eis que o próprio algoz, torna-se aliado e, presto! Donos de rádios antigos começam a se conhecer em feiras de antiguidades, depois em notas de jornais, depois em curtas reportagens televisivas, mas a cousa explodiu mesmo com a internet. Qualquer um pode encontrar um modelo e ano que lhe agrade e caiba no seu bolso, tomando os devidos cuidados, é claro.

Hoje, com o grosso do serviço feito, é fácil encontrar rádios antigos, especialmente nas feiras vintage e de antiguidades que proliferam pelo mundo. Também temos o fácil e perigoso negócio por sites de classificados, como o Mercado Livre. A maioria dos vendedores é honesta, mas entre estes, os malandros sabem se camuflar muito bem.

60/70s National Panasonic Rádio Relógio. Fonte: http://fish4junk.co.uk/

Dos antigos e charmosos rádios em estilo capelinha feitos de madeira entalhada, até os refinados de baquelite nacarada, dos anos cinqüenta e sessenta, a regra principal é: SÓ COMPRE SE FUNCIONAR NA SUA FRENTE. O que está nas photographias, pode muito bem ser outro producto de outro vendedor, ou até parde de um acervo que não está à venda. Só compre se puder ver, pegar, analisar, ouvir todas as estações que o aparelho puder receber.

Um rádio valvulado de madeira, grande e em perfeitas condições, como o Zenith 4v31 dos anos trinta, da primeira ilustração, encosta facilmente nos dois mil reais. É o caso em que compensa mandar um conhecido que more perto is ver, ou tu mesmo viajar até lá. Na volta, não seja muquirana, pague extra por um bom seguro e excesso de bagagem, para trazer o aparelho de volta consigo. Há, por exemplo, o caso de relíquias que justificam o nome, como o Crosley Giant, da ilustração, que em perfeitas condições, não tem preço, vale literalmente uma pequena fortuna. Não se transporta um desses em um caminhão qualquer, ainda menos nas nossas estradas.


Rádio Philco 70s. Fonte: http://campinas.olx.com.br/radio-antigo-anos-70-iid-460677864

Desconfie e fuja de preços baixos, porque um rádio antigo raramente é barato, se não for roubado ou não estiver em más condições. Quanto à manutenção, embora seja difícil, é perfeitamente exeqüível, pois ainda se fabricam válvulas, basta ter a mesma paciência que se deve ter para escolher e negociar um rádio, que vai valorizar de sobremaneira qualquer decoração, seja doméstica ou institucional.

Para quem quer apenas uma bela peça em estilo antigo, há muito que se fabricam aparelhos retrôs, que retratam todo o século XX. A maioria conta até com entrada USB, para pen-drive.

Finalmente, para quem estiver em Goiânia, recomendo a rádio que eu ouço todos os dias, a Executiva FM, 92,7 mHz. Quem gosta do que eu escrevo, vai gostar dela, Só se pede paciência, porque a distribuição eleitoreira de concessões, tornou muito difícil a sintonia manual, mas compensa, ah, como compensa!


 

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P.S: Desculpem pelos erros, já foram corrigidos. E o tópico ainda tem o que render, será retomado em tempo oportuno. 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Divagações - Por que amamos o passado?


Caríssimos, quase dois meses depois, volto a publicar algo que vale à pena. Estou com problemas pessoais, dinheirais e doençais, motivo pelo qual tive, e ainda tenho, dificuldades em honrar com meus compromissos internauticos, neste e nos outros blogs. Tem blog de amigos, que não vejo há mais de um ano, e não encontro mais o link... Nem lembro mais os nomes... Vergonha...

Bem, para não ser perda total, vou contar alguns motivos pelos quais as pessoas tanto se encantam pelo passado. Não existe um motivo único e padrão, da mesma forma como duas pessoas que pleiteiem o mesmíssimo fim, não o fazem pelo mesmíssimo motivo, e por isso podem se desentender, quando finalmente o alcançam. O mais divulgado é, claro, a douração da pílula, que faz as pessoas acreditarem que tudo era melhor, que o mundo era perfeito, que tudo estava no seu devido lugar, que no Egito tínhamos pão em abundância e nos sentávamos à mesa, com panelas cheias de carne, mas você, Moisés, nos trouxe para morrermos de fome e sede neste deserto!


Infelizmente não é verdade, é só insegurança, na maioria absoluta dos casos, seja lá qual for o motivo da dita cuja; isto aqui não é um blog de psicoterapia, então vamos adiante. Se o passado tivesse sido tão próximo da perfeição, ainda estaríamos nele. Não parados no tempo, é claro, mas quase tudo de então ainda vigoraria, pois estariam todos satisfeitos. Mas a maioria das cousas, até a eclosão da cultura retrô-vintage, caiu no esquecimento por décadas, a ponto de um Landau já ter sido trocado por geladeira usada... Hoje um em perfeito estado, não sai por menos de setenta mil reais nem com a bênção papal. O problema vem, quando o apêgo se torna tão tenaz, que as pessoas se recusam a ver o que estava errado, o que melhorou e o que pode ser encaixado de bom, daquelas épocas, assim passando a atacar tudo o que se faz de novo, e culpando o novo por tudo o que há de ruim, mesmo por problemas milenares, que acabam se esquecendo que são pre existentes. Quase sempre, culpando as roupas femininas por todas as mazelas da humanidade... Só Freud mesmo!


Nos casos mais amenos, muitas pessoas se apegam à memória de infância, quando geralmente não se tem preocupação nenhuma, quando tudo está de bom tamanho, quando qualquer cousa serve para distrair e divertir, quando uma fruta ou um saquinho de balas é uma bela recompensa por um bom comportamento. Os pais tomando a frente, o dia mais curto e confortável, já que criança dorme mais mesmo, os productos para o público infantil naturalmente mais coloridos e simpáticos, et cétera. Uma cantora passa, então, a ser referência de talento e qualidade musical, mesmo que tenha sido apenas mediana, em sua época. Vamos ser francos, com os adultos cuidando de toda a parte chata e perigosa da vida, para a maioria era mesmo um paraíso. Aqui, também se corre o risco de tornar algo bom, altamente venenoso, com iminente intoxicação cronológica, cujos efeitos colateriais variam de indivíduo para indivíduo. Não tenho saudades da minha infância, então não é o meu caso.


Há o caso mais comum, de gente que simplesmente vê muito mais graça nas cousas de determinada época, do que nas das recentes. Até gostam de Artic Monkeys, mas dançam mesmo é ao som de The Zombies. Gostam de ver que o carro tem ABS, air bag, ARS, trio eléctrico, tela touch screen, mas não negam as qualidades e morrem de amores pelo Landau. É o caso da maioria dos antigomobilistas, das turmas que aderem à moda vintage, que reaqueceram o mercado das pin-ups clássicas e suas releituras, tiraram do esquecimento alguns intérpretes d'outrora, e pessoas que simplesmente se encontram no estilo vintage. Em parte, é o meu caso.

Há também o caso de pessoas que simplesmente acham legal. Olham aquelas roupas anos cinqüenta ou sessenta, vêem cartazes de época e gostam, mas não para incorporar à vida cotidiana, embora acabem se pegando com arranjos e adaptações retrô, sem querer, mas também sem neuras. Quando se dão conta, há um aparelho de som imitando madeira na cômoda, ou um vestidinho minimalista com lenço para cabelos na mesma cor. Em parte, também é o meu caso, mas eu já faço isso conscientemente.

Há ainda aqueles que, quase sempre inconscientemente, vêem no estudo de documentos, de vídeos, propagandas, filmes, músicas, enfim, aqueles que vêem no conhecimento pleno das décadas passadas, um modo de terem vivido lá e, de certa forma, estarem vivos desde então. É uma forma virtual de prolongar a vida, já que a sobrevida não pode ser esticada para trás, e muitas vezes nem para frente. Uma pessoa com razoável conhecimento do cotidiano do século XX, desde a bélle époque, pode se sentir centenário em um corpo de quarenta anos, por exemplo. Ver um vídeo de boa qualidade, ainda mais se for em cores, e há muitos dispóníveis pela internet, te dá a nítida impresão de que tudo aquilo aconteceu ontem, ou mesmo hoje cedo. Dá até para estranhar, quando se estica o pescoço para fora da janela, e se vê aquele desefile de carrinhos iquaizinhos e quase nas mesmas cores. Well, se eu já era adulto em 1947, então já estou beirando os cem anos de idade, se já não ultrapassei.

Por isso mesmo, sempre aconselho aos que me questionam, a não se aterem à sua época preferida, sempre recuar uns anos mais e ver no que deu tudo aquilo, de então até hoje. Esta atitude, dá um realismo maior na ilusão de se estar vivo há mais tempo, e ainda alimenta o senso crítico com o desenrolar da história. Um cidadão da época, não sabia de tudo o que acontecia, se muito, estava bem informado com noticiários e informações orais, então é totalmente desnecessário tornar-se um PhD na São Paulo dos anos quarenta, por exemplo. É desejável, mas acessório. Só jamais se atenha a meia dúzia de fontes, especialmente se forem de autores com a mesma linha de pensamento. Eu sei pouco, mas também tenho essa impressão de longevidade retroativa, então também é em parte o meu caso.


O único ponto pacífico, é que quem realmente tem o gene vintage incorporado aos seus cromossomos, não se importa com o estilo do outro... ou com a falta de estilo do outro. Quem é, o é porque se encontrou naquele cenário vivo d'outrora. Gente que freqüenta feiras vintage, não reclama tanto das roupas folgadonas dos rappers, pois se encontrou e não precisa que o outro vá aderir ao seu jeito de viver. É o caso dos steanpunks, que têm tudo para serem filhinhos mimados de classe média alta e alta, quebrando boates e espancando mendigos, mas têm presenteado o mundo com releituras e adaptações absolutamente belíssimas, como os computadores à bélle époque, quase sempre emoldurados com latão muito bem polido. São uma cultura quase silente, mas que tem crescido e gerado bons negócios, além de se consolidar com certa maturidade.

Deixo, para terminar o conselho dos sábio da antiguidade: Amar não é exigir reciprocidade, isso é cobrança por uma transação de troca. Amar é, na acepção da palavra, se doar. Quem ama, liberta. Deixe o passado livre, não tente obrigá-lo a voltar aos dias correntes, liberte-o e ele lhe será um amigo fiel.





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