terça-feira, 27 de abril de 2021

Memória pintada

 

Photo pintada - Félix Conrado Leiloeiro 1940-50s

Muito antes de haver aplicativos de celular, photoshop e até mesmo computadores, muito antes de qualquer truque de algoritmos para identificar a cor a que aquele tom de cinza corresponde, a tecnologia para colorir photographias era o pincel com o olhar aguçado e o bom conhecimento profissional do artista. Não é um trabalho simples, embora a desenvoltura dos profissionais faça parecer que é. Trata-se de dar vida nova a um arquivo já existente e que pode ser o único que a família do cliente tem, então não há margem para erros. Pelo poder que a arte lhes conferia, lhes cabia evidenciar mais umas características do que outras, fazendo, por exemplo um homem abrutalhado pela vida parecer mais austero do que qualquer outra coisa, isso por si já era um colírio para o modelo e seus entes. Aos mais atentos e sensíveis era nítido e surpreendente o grau artístico de trabalhos vindos de homens que, por formação ou surras da vida, às vezes ambos, demonstravam gestos rudes e palavras aparentemente ásperas.



Se hoje parece banal selecionar efeitos de iluminação e foco, pressionar um ícone e ter em um segundo a imagem colorizada com bom grau de confiabilidade, até o início dos anos 1980 os pintores de photographias ainda eram comuns em muitos rincões do Brasil, porque filme colorido ainda era caro para a maioria. As imagens eram quase sempre bem mais antigas, de pessoas que queriam ver seus entes tal qual eram quando vivos, ou mesmo quando mais jovens. Isso ajudava a manter a memória viva, mas também a enfrentar o luto. As molduras eram escolhidas com o mesmo capricho, às vezes meio barrocas, com o intuito de valorizar o registro. E por ser a tinta menos sensível ao ambiente do que o colóide, esses retratos costumam durar até mais do que as photos originais, estas então guardadas e às vezes esquecidas em gavetas. Embora o nordeste seja a região mais famosa por esse tipo de retrato, ele foi muito profícuo no interior de Goiás e ainda é possível encontrar famílias que preservam seus exemplares.

 

Photo pintada, parede interna de Casa da Erva Mate em bento Gonçalves, por 'Garfos e Quartos . com

A prática comum era, e ainda é, pintar pessoas humildes com roupas que jamais tiveram condições de vestir. Um lavrador que passou a vida usando camisas velhas e puídas ganhavam vistosos ternos ricamente sombreados, geralmente cinza ou azul-marinho para dar mais vida à imagem, acrescendo gravatas que eles jamais saberiam como amarrar porque muitas vezes nunca tinham visto uma; sim, é sério. A situação era bem mais precária do que vocês e seus professores imaginam, eu a testemunhei em lugares que apreciam ter escapado do fluxo do tempo, quando criança. Rádios de válvula eram ainda comuns nas casas que tinham electricidade, algumas nem isso tinham, mas é assunto para outro texto.

 

Artigo de Update or Die, nordeste brasileiro

As mulheres de origem humilde, às vezes iletradas, ganhavam vestes e um capricho de cabelo que muitas vezes não existiam nas localidades em que moravam, e quando existiam eram mais caros do que podiam pagar. Jóias simples ajudavam a emoldurar e valorizar seus rostos, não raro atenuando a dor irradiada pelo olhar. Não se tratava de emperiquetar até a senhora casada parecer uma mulher da vida, mas apenas tirar ao mundo o glamour que os anos de privações e sofrimentos lhe tinham tolhido. Às vezes elas não acreditavam que eram as suas imagens que estavam lá, mas os traços não deixavam dúvidas, o artista apenas atenuava ou extirpava as chagas da vida e deixava a beleza aflorar. Por irônico que pareça, apesar de geralmente menos letradas do que seus maridos, na maioria das vezes eram mais cultas e actualizadas.

 

Photo pintada - Levy leiloeiro

A quem podia, as crianças também ganhavam suas obras de arte, eternizando aquelas bochechas em roupinhas mais ricas do que as a que realmente tiveram acesso. Era bastante comum, ainda me lembro bem, ver photos compostas, com uma pose principal em tamanho maior circundada de miniaturas, tudo colorizado com esmero e especial carinho, com fundos em tons pastéis, dando vislumbres de uma infância amena que aqueles petizes dificilmente tiveram. Vez ou outra havia um brinquedo simples ornando a imagem, mas mesmo os brinquedos assim nem sempre estavam ao alcances dessas famílias; estão se dando conta de o quando essa geração mimizenta de hoje é muito mais rica do que as nossas foram e do que aquelas sonhavam ser? Noutros textos deixarei isso bem mais claro.

 


Longe do abastado eixo, ou bolha Rio-São Paulo, as novidades demoravam mais a chegar e essa tradição foi mais preservada, a ponto de mesmo com o advento das photos coloridas algumas pessoas ainda confiarem nos serviços dos photopintores. A obra era feita conforme encomenda e tinha um efeito mágico, fazia vir à tona uma beleza que a realidade abrasiva das pessoas humildes tolhia no cotidiano; as imagens na photo costumavam ser mais reais do que as próprias pessoas retratadas. Também havia os retratos póstumos, em que as chances desperdiçadas de poses conjuntas eram remediadas, mas justo pela diferença de épocas, a montagem costumava ficar evidente, tão evidente quanto o remorso. Era comum eu encontrar casas com paredes adornadas por uma ou mais photos colorizadas a tinta, com imagens dos donos da casa e seus descendentes. Pois é, houve época em que photos de família eram exibidas aos freqüentadores da casa, faz bem pouco tempo que isso começou a cair em desuso, nem trinta anos.

 

Photo pintada - acervo de Titus Riedl, Cratos, Ceará

Por muitas décadas esses artistas foram relegados à pecha de meros coloridores, especialmente com a explosão da arte abstrata e sua idolatria pelas academias, que dava aos detratores uma base “científica” para empurrar o trabalho esperado daquelas pessoas à vala das artes menores. Isso durou até a cultura vintage se firmar no Brasil e seus adeptos verem que nem tudo o que vinha de antigamente era ruim, na verdade a maior parte das coisas eram muito melhores do que gente que nunca viveu a época diz ser. Já nos anos 1980, com sua paixão arrebatada pelos 1950, os mais atentos começaram a notar isso. No caso das photos colorizadas a tinta, algumas coisas saltam aos olhos, além do fino trabalho artesanal. Muita coisa foi encontrada em espólios abandonados, cujos donos simplesmente parecem ter sido apagados do tempo, e hoje é vendida por bons preços em antiquários.

 

J. M. Goitia - Moça com Blusa Rosa 1941

O efeito de “mais real do que a realidade” se deve em boa parte ao efeito levemente brumoso da imagem trabalhada, que acentua os traços e cores com uma beleza dual e pode assustar algumas pessoas. Aquela imagem parece ser de gente congelada no tempo, com seus olhares para o infinito e suas expressões bastante serenas, com uma aura sobre fundo bem mais escuro detrás das figuras, dando a impressão de que aquelas pessoas ou estão ainda vivas, ou já mortas desde antes de a photo ter sido feita. Para muitos parecem retratos de cemitério. Quem já encarou uma dessas sabe que dão a impressão de estarem te observando e até mesmo vigiando os comportamentos estranhos dessa nova geração. Inspiram mais respeito do que muitas photos profissionais de autoridades.

 

Photo pintada - coleção de Jaqueline Bernardes

Por mais que um artista tente fazer similar aos outros, cada photographia dessas era única, inclusive pelos custos que demandava, assim os traços, as posturas, as expressões, as luzes e sombras também o eram e precisavam ser trabalhados de acordo. A isso se somem as técnicas, o estilo e o estado de espírito do artista, fazendo que mesmo duas cópias da mesma photo nunca saíssem idênticas; grau de personalização pelo qual hoje precisamos pagar os tubos, mas na época era normal. Por tudo isso, inclusive pela dificuldade de se conseguir um retrato, essas peças eram guardadas com muito cuidado e tratadas com carinho. Por vezes, muitos anos depois, o cônjuge sobrevivente tirava photos modernas abraçado a um daqueles retratos coloridos, como se fosse o guardião de sua própria história, com a dor da saudade estampando o olhar de súplica a pedir por quem se foi; quase uma prece registrada em prata.

 

Artigo de Update or Die

Com o ressurgimento do interesse, voltou a crescer o mercado de restauração desses retratos. Se é uma boa notícia, também inspira cuidado, porque sempre há um profissional duvidoso querendo apenas pegar o seu dinheiro e sumir no mundo assim que tiver feito o estrago, que nem sempre é percebido na hora. Dica? A mesma do dito popular: quando a esmola é muita, o santo desconfia. Mesmo artistas hábeis com tinta óleo podem não ter a expertise necessária, e a photo pintada se torna uma “reles” pintura sobreposta. Os motivos da segregação pelos modernistas em outras épocas são os mesmos de haver poucos profissionais aptos, quase todo o conhecimento foi transmitido oralmente, então não espere que uma restauração seja rápida ou barata… ou…

 

Faço baratinho, senhor...

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