terça-feira, 26 de abril de 2016

A falência do design - os carros


  Não foi uma só, foram várias vezes em que li e ouvi gente reclamando da falta de interesse das crianças pelos automóveis. A questão chegou a suscitar uma nova linha de catastrofistas, os que dizem que o fim do automóvel está próximo. Um teste recente nos Estados Unidos demonstrou isso, garotos na primeira infância se mostraram indiferentes aos carros apresentados, à exceção do Nissan Leaf. O  eléctrico puro da Nissan é o plug-in mais vendido no mundo, de cara ele chama atenção pelo desenho completamente diferente dos outros, alguns elementos chegam a remeter aos carros populares dos anos sessenta. Aliás, houve época em que a Nissan era chegara ao design retrô!

  Há cerca de dez ou quinze anos, as crianças conseguiriam identificar seus preferidos sem maiores dificuldades, mas isso porque houve uma tentativa de retomar a personalidade estética, como a linha Chrysler de então, que parecia uma linha de naves espaciais. Há trinta anos seria um esforço desnecessário, mesmo com desenhos bem mais simples do que de outras épocas, era fácil distinguir um Mercedes-Benz de um Volkswagen, um Ford de um Chevrolet, uma Honda de uma Yamaha. Hoje vivemos uma era de medo de fracassar, mesmo o que parece ser diferente, nada mais é do que uma caricatura do que já existe. carro tem que ser agressivo, cheio de penduricalhos feios e inúteis, de preferência ser um (arg) SUV de péssima aerodinâmica e ausente de personalidade. Quem já viveu entre Veraneio, Rural Willys/Ford e a Kombi jarrinha, sabe do que estou falando.


  Não é de se estranhar que petizes em tenra idade arreganhem sorrisos ao verem um DKW passando, mesmo o Fusca, ainda com mais de dois milhões de exemplares rodando pelo país, provoca mais comoção do que um carro "fodão badass" com rodas desnecessariamente grandes, grades exageradas e sem qualquer harmonia estética, enfim. Os carros, especialmente populares, são pouco mais do que cópias e colas de seus concorrentes. A argumentação da segurança e das conveniências de conectividade, estão atraindo quem não dá a mínima para carros, quem gosta deles entra em um Corcel 1976 sabendo dos riscos que corre. Já consultei um engenheiro mecânico, um ex-professor de tecnologia mecânica e dá sim para colocar airbag e toda a parafernália electrônica em um carro antigo, os gastos não superariam o que muita gente desembolsa para arruinar um clássico apto à placa preta.

  E por falar nisso, algumas montadoras estão dando o tiro no pé de decretar que os acidentes podem ser eliminados, se as pessoas forem simplesmente conduzidas por carros autônomos. Não nego que em caso de embriagues ou problemas de saúde, é bom contar com esse recurso, mas simplesmente tirar o controle de seu destino de suas mãos, meu amigo, vai contra o maior sentido de existir de um automóvel, que é a liberdade. Não vou falar aqui, não agora, dos danos que essa fomentação da preguiça e do individualismo pode causar, porque deixar-se controlar por um robô vai desestimular até olhar pela janela, em caminhos percorridos diariamente. E lamento informar, a perfeição não existe no orbe dos homens, cedo ou tarde a máquina falha, para de funcionar ou te leva para o lado errado, como para cima de um poste... Ou de uma criança na calçada. Basta dar pau, o que já é comum em nossos carrinhos control+C-control+V. Diga-se de passagem, os comerciais de carros seguem a mesma idiotice do design, ou da falta dele. Ah, sim, e a Ford perdeu um potencial cliente ao declarar que não quer tiozão dirigindo seus carros, motivo pelo qual renomeou o Focus sedan com um nome idiota de apelo"jovem".

  No Brasil há ainda o agravante da escassez de cores, que concessionários impõe para poupar gastos com estoques, divulgando que essa ou aquela cor é mais fácil de revender. Fica estranho ver caminhões saindo das fábricas com cores vivas, bonitas e irradiantes, enquanto carros de passeio se concentram em tons de cinza. Ninguém era depreciado por andar em um Opala verde intenso. Houve época em que a Chevrolet oferecia até pintura em dois tons, extinta em 1989, na última remodelação do Opala. Preciso dizer que esse opcional tornou-se um clássico? Pois já disse. Alguns tons de amarelo eram tão escandalosos, que doíam nos olhos. Cor viva ser exclusiva de falsos esportivos e (arg) SUV de araque, é tendência tão recente quanto imbecil. Vejam só, carros maiores têm cores fortes, os pequenos, que mais precisam ser vistos no trânsito, têm quinhentos tons de cinza.


  E não é só no exterior, o interior dos carros era completamente diferente dos concorrentes, muitas vezes uma marca tinha um estilo próprio para cada família de carros. Era fácil identificar se havia entrado em um Chevette, um Kadett, um Monza ou um Opala; todos da mesma marca. Bastava abrir os olhos e todos os elementos de estilo saltavam aos olhos. Tente fazer isso nos Chevrolets nacionais de hoje. Imagine as linhas Fiat Volks da época, que tinham carros de várias épocas e concepções dividindo as mesmas fábricas! Era um desbunde, um colírio sobre rodas!
  Sempre foi um problema localizar um carro em um estacionamento grande, como o de um shopping center, mas hoje é um verdadeiro pesadelo. É como se o mundo fosse preto e branco com baixa resolução.

  Em parte pé por isso que os chineses estão comendo fatias do mercado ocidental. Os modelos vendidos aqui usam plataformas de carros ocidentais, com todas as normas de segurança que cada país exige, só que sem os custos de desenvolvimento de um automóvel novo. Se é para comprar uma coisa sem personalidade, que vai durar pouco e se rasgar só de encostar em um carro dos anos oitenta, não há dúvidas em escolher o mais barato. Se a tal "racionalidade" é tudo o que importa, então o preço é um argumento mais poderoso do que conforto e prazer de dirigir... Aliás, ir de ônibus é um argumento melhor... Vida cinzenta! Melhor morrer feliz, sério!

  Um amigo, dono de um belo Escort XR3 conversível, creio que ano 1986, que chama atenção por onde passa, contou de dois episódios que vão arrepiar quem decora os discursos dos fabricantes e dos engenheiros de escritório com ar condicionado:
  No primeiro um Hyundai HB20 bateu na lateral e saiu esfregando no Escort. Ele saiu para ver os prejuízos e só encontrou o friso lateral torto, com uma massa de tinta branca. O HB20 teve sua lateral completamente rasgada. Descobrir essa fragilidade tão grande, que no cotidiano pode resultar em ferrugem rápida por conta de arranhões mais profundos, comuns na vida útil de um carro, foi realmente revolucionário.
  No segundo foi com um Novo Fiat Uno. O sujeito simplesmente ignorou a preferencial e avançou, meu amigo o pegou em cheio. Apesar de todas as barras de proteção, estrutura reforçara para a sua segurança e tudo mais, ele afundou as portas do Fiat, a frente do Escort, que na época do lançamento era considerado frágil, ficou praticamente intacta. E a falta de airbag não fez diferença... Incrível, não? Ele saiu ileso, feliz e saltitante por não ter comprado um "plastimobile" com pompa e apelo de testes de colisão que, francamente, doravante vou confiar pela metade.


  Estão entendendo por que o antigomobilismo, como toda a cultura retrô e vintage, está avançando tanto e com tanta força? Ninguém em sã consciência que viver em uma bolha estéril, protegido de tudo, de todos e da própria vida. O que vivemos hoje é algo pior que os pesadelos de Audous Huxley. Nós parecemos viver em uma era de tolerância e progressos pessoais, mas em nenhuma outra época um fabricante disse que o problema do carro é você, que você deve ser substituído em vez de educado e bem treinado. Em nenhuma outra época os preconceitos, os tabus,  o louvor a ditadores, a agressão a quem pensa diferente foi tratada abertamente como algo legítimo; até os anos noventa, gente assim era chamada de idiota em público. Hoje é só defensor de suas verdades bla-bla-bla e mimimi. Hitler usou "suas verdades" para justificar o que fez, viu!

  Está tudo uma droga, mas com rótulo de progressismo e esperança, para eles é o que vale.


  Não é de se admirar também, que as grandes montadoras americanas tenham voltado a fabricar peças, com tecnologias e padrão de usinagens modernos, de alguns de seus clássicos. Já é possível montar com peças novas e de fábrica, um Ford 1932, um Mustang Boss 1967, um Challenger 1969,um Camaro 1969, os gloriosos Bel Air de 1955 a 1957, entre outros. Pode comprar peças, ou encomendar o carro pronto, personalizado ao teu gosto. Custam cerca de cem mil dólares, os carros prontos para rodar, mas vendem, e vendem bem. Parece loucura, não? Mas não é. é a troca de uma cela segura pelos riscos de uma vida feliz... Nossa, que piegas! Adorei esta parte!


  Há ainda as tradicionais fábricas de kits, réplicas e estilizados, que vendem carrocerias de fibra de vidro ou carbono, além das de alumínio. O preço do carro completo é o mesmo dos clássicos, mas aqui o grau de personalização é muito maior. Pode-se comprar um Auburn ou Bugati boat tail com motor moderno, Chevy, Ford, Mopar ou até Maserati; este talvez o único motor italiano que eu respeito. Se as grandes montadoras não derem nos fundilhos dos covardes dos departamentos de marketing, serão facilmente substituídas a longo prazo por esses pequenos fabricantes!

  Finalizando, tenham na ponta da língua uma resposta pronta e seca para os paspalhos que não só vivem nessa bolha de aparente felicidade, mas querem te obrigar a entrar nela e detratam tanto teu modo de vida como o teu carro antigo: NINGUÉM ESTÁ TE OBRIGANDO A ENTRAR NO MEU CARRO. FIQUE NO SEU E NA SUA. Pode parecer mal educado, mas as pessoas estão desaprendendo a ler entrelinhas e respeitar negativas educadas.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Quando o cabelo subiu à cabeça! Anos 60


  Não é raro, na verdade bastante comum, ver um registro dos anos sessenta, mais precisamente entre 1964 e 1968, onde mulheres com cabelos armados, muito altos. Não raro mais de vinte centímetros eram acrescentados à estatura, por causa do penteado extravagante.


  Como nasceu exactamente, não se pode afirmar com certeza, mas a moda que excedeu as raias do absurdo teve pontapé na arte, especialmente filmes e séries de ficção científica, onde o exagero é mais do que normal, é uma regra sacra.


  Das telas e das passarelas para as festas foi um pulo. As coisas começaram discretamente, um pouco de laquê para manter o volume, de vez em quando, manter as pontas viradas para cima, ajudar a firmar o penteado de uma cabeleira longa toda amontoada na cabeça, e o que era glamour ganhou toques de brega. Well, cada um tem ou deveria ter, a vida que quer viver, mas quem se expõe assume o risco de virar piada.


  O penteado daquele marciano de Marte Ataca, que se fantasiou de humana para se infiltrar, não foi um devaneio estilístico, aquele penteado realmente existiu e era utilizado na vida civil. Imaginem entrar em um carro comum com mais de dois metros d altura, metade deles só de cabelo! E o peso deslocado todo para cima, imaginem o que era fazer um gesto brusco ou mesmo se inclinar, fora o risco de tudo desabar!


  Sim, meus amigos e minhas amigas, era um risco que as mulheres assumiam com alegria, simplesmente porque se realizavam. Mais ou menos como uma boa moça que decide enfrentar o falatório e faz uma bela tatuagem em lugar bem visível. Claro que o penteado pode ser desfeito mais facilmente do que a tatuagem, mas é por aí.


  Também havia a euforia do optimismo sem precedentes do meio de século passado. "Eu posso" era o lema do ocidente, e de muitos lugares no oriente, especialmente nos Estados Unidos. Ainda mais com os avanços da era espacial. O grande problema era que o exagero ignorava os riscos de intoxicação do laquê, principalmente porque é aerossol, facilmente aspirado e alojado nos pulmões. Também por isso algumas ousavam e anexavam jóias ao penteado, um recurso tão arriscado quanto compensador, para quem sabe o que está fazendo. Neste caso, só para as festas mais glamorosas.


  Mas mesmo com volume avantajado, havia penteados que justificavam ir a um evento para vê-los. Sejamos justos, algumas verdadeiras obras de arte, por vezes minimalistas, escondiam a trabalheira que davam na elaboração. Eram penteados que combinavam muito bem com vestidos e ambientes refinados, mas perderam força quando as roupas começaram a ter cortes mais simples e as barras ficaram mais altas.


  A moda não durou muito, com os hippies veio a idéia com acento de vida natural, ser natural e os cabelos soltos, balançando e por vezes cobrindo o rosto, veio à tona. Isso aconteceu pelos idos de fins de 1968 e em fins de 1969 quase ninguém mais fazia esculturas capilares. Não para uso civil.


  Hoje é muito difícil encontrar quem saiba fazer esses penteados. na época não era barato, hoje a escassez de mão de obra os torna muito caros. Não se enganem, apesar de alguns parecerem simples, a execução é bastante elaborada, especialmente se a cliente dispensar o laquê! A seguir um penteado que não é exactamente básico, mas era dos mais simples e comuns para a noite... Às vezes até para o cotidiano.


quarta-feira, 15 de abril de 2015

A era atômica

Casa de Sacramento, anos 1950
  Tudo começou com o Sputinik em 1957, um satélite soviético usado para testar a viabilidade da comunicação orbital, na realidade o primeiro satélite artificial do mundo, e também o pontapé oficial para a rivalidade entre americanos e soviéticos. Foi quando as tecnologias começaram a descer em profusão dos laboratórios para as residências, como conseqüência também o início da obsolescência rápida, que muitos chamam in-de-vi-da-men-te de "programada". Com mais investimentos, os projectos acadêmicos e militares baratearam rápido e os artigos oferecidos no ano passado, logo sofriam melhorias significativas, fartamente alardeadas e exageradas pelas agências publicitárias.

  Foi ainda no fim da guerra, porém, que o surto de um optimismo que beirava o absurdo tomou conta do mundo ocidental. Hélices começaram a ser substituídas por jactos, o forno de microondas levou a tecnologia dos radares para a cozinha, a televisão se popularizou de forma assustadora, o rádio estava cada vez menor e mais barato, os aparelhos de telephone ganhavam cores e formas que pareciam saídas de sonhos, e os carros, ah, os carros... Meus amigos, foram quase três décadas de êxtase. As pessoas se atiraram no sonho coletivo de paz e prosperidade como nunca na história, especialmente com a promessa (quebrada) de um governo mundial central, com o advento da ONU. As pessoas queriam, pelo menos em uma época de nossa história, construir um mundo melhor, não somente um futuro melhor para si e os seus.


  Os cientistas, engenheiros e técnicos que proporcionaram tudo isso, foram os garotos que cresceram lendo Buck Rogers e Flash Gordon, com toda a influência do art déco em suas infâncias, mas querendo se desvencilhar do pessimismo que marcou o período entre guerras. Idéias mirabolantes não faltaram. Um desejo comum entre eles era compensar o trauma da Segunda Guerra Mundial, porque muita gente pelo menos conhecia alguém que perdeu o pai, ou os pais no conflito. De certa forma eles conseguiram, até bem demais, lograr êxito. Criaram um conto de fadas científico e as pessoas não estavam preparadas para ele, nem para largar dele.

  De repente alguém, se deu conta de que os prédios não precisavam ser necessáriamente quadrados, que as pessoas não eram leite, para justificar o aproveitamento quase absoluto de cada milímetro cúbico de uma caixa, que o cidadão médio estava se entediando e até se deprimindo com os rigores da busca pela eficiência, precisava urgente viver em uma casa feita pra se viver, não apenas para se habitar. Alguns efeitos colaterais vieram, a fé cega na ciência fez surgir a máxima "Se é remédio, só faz bem", contrariando a sabedoria milenar "A diferença entre o remédio e o veneno, é a dose", e as pessoas passaram a comprar felicidade química na drogaria mais próxima, crentes de que a eliminação do sintoma resolveria tudo, e que nada de mal aconteceria. Foi nesta época também que a indústria do tabaco teve a confirmação de que o cigarro mata, e escondeu de todo mundo o quando pôde, para depois se fazer de vítima de ativistas mal intencionados.


  As formas passaram a ser inspiradas na ciência e na tecnologia de ponta. Os carros começaram a imitar os aviões, até com exageros, enquanto a arquitetura começou a se guiar pelos esboços de estações e colônias avançadas no espaço e em outros planetas. Casas com  a forma de módulos, que seriam encaixados de acordo com as necessidades da colônia, como tijolinhos lego, que são desta época, outras em forma dos prosaicos monitores de computador da época, outras ainda imitando discos voadores. Em alguns casos, como o aeroporto internacional de Los Angeles, a inspiração do arquiteto tornou-se não só um sucesso, como referência de uma tendência que ecoaria até meados dos catastróficos anos setenta, quando se descobriu qua uma usina nuclear poderia sim vazar e ameaçar tudo a centenas de quilômetros de distância. Descobriram que a ciência não era inofensiva.


  Escadarias residenciais externas, algumas sem corrimão, outras aparentando flutuar, dando o aspecto de leveza de uma nave espacial, que tem o estritamente necessário e usa materiais ultra resistentes para poderem ser usados em pequenas quantidades, poupando combustível e capacidade de carga. Isso se refletiu também na decoração. Tudo tinha inspiração espacial, de algo movido por energia atômica, ainda que os mecanismos internos fossem os centenários motores de indução ou mesmo de molas. Mas era necessário se preparar para morar no espaço, então tratava-se de se acostumar ao ambiente espacial... Ou o que se julgava ser um ambiente espacial plausível. Quem já viu vídeos da estação espacial internacional, sabe que há um caos aparente que em nada lembra a limpeza de linhas e formas daquela época.

Los Angeles International Airport

  Assim como estrelas e outros corpos celestes gigantescos, o microscópico também servia de referência, porque parecia qua finalmente a medicina estava dominando a doença; ledo e fatídico engano. Mesas de centro e móbiles em forma de paramecios, sofás assimétricos como uma ameba simplificada, combinando com estampas de forros e papéis de parede, que remetiam aos átomos e à radiação atômica, bem como aos gráficos complexos, mas aqui de forma simplificada e simétrica, dos aparelhos ultra sofisticados que começavam a infestar hospitais, oficinas, quartéis e filmes de ficção.

Atômico até na hora de comer

  Vendo nas revistas o que seriam as plataformas de lançamento de foguetes, completamente diferentes das reais, mas muito utilizadas no lançamento de mísseis, o mundo viu proliferar as fachadas e até construções inteiras baseadas neste conceito, que se na época era tão bonito quando pouco prático, com as águas convergindo para dentro, hoje seriam muito úteis na coleta de água da chuva. O facto é que a engenharia de materiais estava engatinhando, e o melhor daquela arquitetura só pode ser usufruído hoje, quando o clima é exactamente o contrário, as pessoas se entopem com entorpecentes mesmo sabendo que farão mal, grupos se unem por uma causa quase sempre só pensando NA MAIS TRISTE E DURA VERDADE em seus próprios umbigos, para garantir seus próprios caprichos, enfim... As pessoas nunca foram melhores, mas houve época em que tentaram ser, não para garantir seu direito, mas para serem melhores mesmo.

Sim, é o aconchegante quartinho atômico do bebê

  Se por um lado o delírio de um optimismo exacerbado trouxe uma decepção abrupta e uma depressão, que só cresce e alimenta as mazelas desta época, por outro financiou as bases de todos os absurdos avanços tecnológicos que mal conseguimos acompanhar, como um computador realmente melhor e mais poderoso surgir a cada seis meses ou antes, se bem que seria melhor e menos insano usar um avanço para aprimorar mais os seguintes e esperar ao menos um ano entre cada tablet novo.

Sua Majestade Imperial o Consumidor

  Tudo o que temos hoje, teve início naquelas três frenéticas e desgastantes décadas. Foi quando a válvula começou a dar lugar ao transístor, quando os plásticos se tornaram fortes e seguros o bastante para servirem de estrutura, quando os tecidos sintéticos começaram a ter qualidade apreciável, a usinagem começou a ficar realmente precisa... Na verdade, em muitos aspectos a mentalidade de então era mais moderna do que a vigente.


  De uma hora para a outra, os eletrodomésticos se tornaram baratos, compactos e práticos. Da noite para o dia dezenas de motores eléctricos invadiram as casas, os serviços domésticos ficaram mais fáceis e sobrou mais tempo para actividades pessoais, como ver I Love Lucy Show ou ir às compras. Ou ir às compras depois de ver as roupas e os comerciais do programa. Um dos problemas mais imediatos e longevos, é que tudo parecia ir tão bem, tudo parecia ser tão perfeito, que as pessoas se recriminavam se não parecessem plenamente felizes o tempo inteiro. Vem daí a mania de chamar de "opressora" a estética dos anos cinqüenta, mas quem diz isso só conhece ou quer mostrar metade da história, uma hora conto ela toda a vocês. Podem usar seus modelitos lindos e cinturados sem medo, não é crime.

Um dos melhores sites do gênero no mundo

  O turismo internacional se tornou fácil, principalmente para os americanos, mas fácil mesmo, a ponto de qualquer cidadão de classe média fazer viagens que seus pais só ouviam falar de magnatas, artistas de cinema e figurões do governo. O mundo tornou-se pequeno e a sede do espaço e do fundo do mar se tornou mais intensa, era preciso dar vazão a essa ansiedade e o cidadão estava disposto a pagar por isso. Nem tudo deu certo, hoje sabemos, mas a vontade coletiva de evoluir foi uma coisa linda de se ver.

1956 Ford Mystere concept car
  Para não dizer que tudo se perdeu, pelos avanços técnicos tardios, para quem quiser construir o futuro que o passado prometeu, já existem meios para isso. Se nos anos setenta um carro eléctrico não rodava mais de 80km nem com vento em popa, hoje 170km são uma autonomia básica, menos do que isso dificilmente vende. Os aços de alta liga, com super metais como Nióbio, Molibdênio, Titânio, Vanádio e o quase indestructível Tungstênio, custam uma fração do que naquela época, pode-se construir prédios com vãos livres e sacadas imensos. Dependendo do talento do engenheiro e da verba, dezenas de metros de uma varanda fixada apenas na base.


  Para quem se dispuser a construir seu sonho vintage, a era atômica pode se tornar realidade hoje. um modo simples de atomizar um ambiente, é pegar delgados losangos em tons terrosos e dispor ordenadamente ao longo de uma estante, por exemplo, e colocar um círculo excêntrico em cada um. Parece simples demais, mas o efeito é imediato e salta aos olhos. Não é difícil, basta digitar "atomic era" no google images, se preciso seguido do tema específico, e uma miríade de imagens belíssimas e sites interessantíssimos se abrirão ao seu dispor, fazendo da máquina um servo gentil e prestativo para seus amos de carne e osso, exactamente como queriam os criadores da era atômica.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Minha Kombi, meu pão de cada dia

Kombi de Ronay Andrada, presidente do Clube de Veículos Antigos de Goiás.
  Ainda mais do que o virtualmente indestructível Fusca, a Kombi é um dos (se não o) carros mais versáteis de toda a história. Chegamos a ter um fabricante de kit para tração 4X4 que se tivesse vingado, seria a humilhação suprema para os jipes.

  Um carro tão versátil não se furtaria o direito de ser também um ganha pão. Pois muita gente pelo mundo modifica suas Kombis para driblar o desemprego, ou simplesmente para não depender de um. As vantagens são imensas:

  1. É um veículo relativamente barato. Mesmo com todas as despesas legais, pode sair mais em conta tirar o alvará de ambulante e transformar a Kombi em uma lojinha, do que abrir uma banquinha com endereço fixo em alguma esquina, com  a vantagem extra de poder levar seu negócio para onde o público está, como um evento retrô vintage, por exemplo;
    Fonte: Fine Art America
  2. Cabe em qualquer lugar. Mesmo a última, com seus 4,5m de comprimento, é um veículo considerado pequeno, com um raio de giro idem e com excelente visibilidade, por ter o motorista em posição avançada. Isso facilita muito as manobras de estacionamento, apesar de a versão nacional nunca ter contado com direção hidráulica, que pode ser instalada. Enquanto os caminhõezinhos coreanos, mais largos e longos, procuram por uma vaga, aquela logo ali pode te servir bem;
    Fonte:Split the Difference
  3. Custo de manutenção muito baixo, mesmo a medonha última Kombi com aquela máscara de jason na frente. Mesmo ela usa uma mecânica muito robusta, confiável e fácil de consertar. A maioria das demais peças foi fabricada por décadas e o mercado está repleto delas, originais e paralelas de primeira qualidade, feitas pelos próprios fornecedores que só têm o cuidado de não colocar o logo VW nelas;
    Fonte: Auto Classic
  4. Espaçosa. Uma propaganda antiga dizia que a Kombi é um espaço sobre rodas, pois é a pura verdade. Sim, seu sei que as novas vans de tração dianteira têm mais espaço, mas são muito mais caras, com manutenção muito mais onerosa e todas as limitações da tração dianteira. Em uma Kombi cabem tranqüilamente uma mesa central e dois sofás, mais a decoração e logo atrás uma mini cozinha, o estoque pode ficar em uma caixa térmica na frente mesmo;
    Customização sem limites!
  5. Fácil de adaptar. A versatilidade do bom e velho Pão de forma permite uma leque imenso de customização. Permite até mesmo um teto elevável, para permitir que, com o carro parado, o cliente possa ficar confortavelmente em pé, o que é particularmente útil se o negócio escolhido for moda, já que as roupas poderão ficar penduradas;
    Kombi lojinha oficial do Volks Clube de Goiás
  6. Motor traseiro. Isto aliado à grande distância entre o solo e o chassi, permite que ela atravesse quase qualquer terreno, mesmo muitos atoleiros, dando acesso a comunidades isoladas ou fazendas distantes, onde uma festa tradicional esteja acontecendo. Com tração dianteira simplesmente não dá, especialmente se precisar subir rampas com baixa aderência, e as vans com tração traseiras custam muito caro!
    Kombi oficial da banda retrô Túnel do Tempo
  7. Carisma. mesmo quem não gosta da Kombi, gosta da Kombi. Ela por si já chama atenção, qualquer adesivo, qualquer letreiro, qualquer pintura diferente, qualquer toldo estendido já a destaca na paisagem, chamando a clientela com eficiência. Mesmo quem não gosta dela se aproxima, quem gosta dela é cliente quase garantido. Imagine então uma Kombi como lojinha de miniaturas, inclusive de de Kombi!


  Apesar da má fama causada pela mangueira de combustível das antigas, uma manutenção constante previne qualquer problema. Aliás, no cofre do motor há espaço para uma caixinha de ferramentas e outra de peças de reposição, é tudo uma questão de arquitetura.
Fonte: Flickr Chimay Bleue
   Aos que se animaram, vão algumas dicas para não ter mais problemas do que os cotidianos:

  • Siga todas as regras possíveis para a compra de um carro usado. No caso das mais antigas, com motor do Fusca, espere ele esfriar, vá à polia do virabrequim (aquela rodona na parte de baixo que faz a rodinha do alternador girar) e sacuda, se houver muita folga é sinal de que precisa de retífica, talvez até trocar componentes importantes. Verifique a tubulação de combustível como quem lê a própria sentença de morte, para ver se encontra alguma falha que possa te safar. Se não conhece mecânica, não economize, leve um técnico;
  • Na hora de equipar, deixe as peças pesadas na parte mais baixa, isso vai ajudar a estabilidade que sempre foi crítica em um carro alto e leve. É um carro de mil quilos que leva mil quilos;
  • Troque os freios por outros mais potentes e tenha mais atenção com a calibragem dos pneus, afinal a sua Kombi vai andar sempre com carga, todo o conjunto será mais exigido, por isso mesmo também aconselho utilizar um limitador de velocidade. Lembre-se, é uma empresa, não um carro de passeio, muito menos um esportivo de performance;
  • Se for abrir um vão no teto para fazer um elevável, use outro teto original, com guarnições de borracha no perímetro, isso não só facilita a modificação como assegura uma vedação de boa qualidade;
  • Consulte bons fóruns na internet, eles têm mais especialistas por página do que todas as revistas nacionais especializadas em automóveis juntas, é gente que mexe no cotidiano, que descobre e compartilha soluções, que está actualizada e ainda pode render excelentes idéias para a customização de tua Kombi.
  • Prefira as antigas, com teto baixo, elas são muito mais baratas e têm mais apelo emocional, além de haver muitas em excelente estado de conservação, prontas para virarem CNPJ. As mais antigas, chamadas de Jarrinha, Corujinha, Biquíni, etc, demandam mais cuidado não só pela idade, mas também porque não têm aperfeiçoamentos de segurança e potência que o modelo 1977 recebeu;
  • Pelo menos uma vez por ano desmonte o que for possível da lojinha para uma manutenção profunda, para isso seria útil e agradável essa manutenção coincidir com as férias. Normalmente uma semana é suficiente para a kombi voltar como nova de um bom centro automotivo.


  Não vou dar dicas de que negócio devem abrir, isso demandaria vários textos que mesmo assim não esgotam o assunto. O que posso aconselhar é que não tente encontrar um ramo que dê dinheiro, isso é para aqueles tipos que naufragam na primeira crise brava, encontre um ramo que te agrade e se aperfeiçoe para torná-lo lucrativo, isso pode ser conseguido com consultas e cursos no Sebrae, pesquisas de exemplos que deram certo, até mesmo os que deram errado para servirem de lição.

  Se o negócio que tens em mente for de artigos retrô vintage, uma lanchonete temática, lojinha de miniaturas ou de moda, de auto peças para antigos, quadros e placas retrô e afins eu só peço um favor: Faça uniformes no espírito do negócio. Pode parecer só um capricho, mas faz uma diferença enorme no contacto com o público e atrai uma empatia que os uniformes padronizados não têm. Isso também ajuda a divulgar e dar boa fama à cultura retô-vintage que ainda é muito bem vista, pode render até pedidos para photographias com os clientes!

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Um encontro de veículos antigos em Goiânia


Thunderbird 1955, diante dos sócios do CVAGO


    Ainda no íngreme declive para o Cepal, vi o Puma do Mineirinho pegar a Rua 83 para o interclubes. Ágil e rápido demais para eu ter tempo de empunhar, ligar, mirar, focar e disparar a câmera; que já está obsoleta, demora mais para acordar. Se eu, que estou acostumado, ainda me encanto, imagino os motoristas em seus carrinhos iguais, vendo aquele conversível passando por eles!

O Puma do Mineirinho

    Cheguei pela calçada oposta ao decrépito Cepal do Setor Sul, na rua 115, já encontrando o habitual Fusquinha 1300 verde, com rodas de Xsara Picasso. Chegando vivo ao outro lado, dei de cara com a Kombi Jarrinha alvi-rubra do Matias, com que ele transportou a singela memorabilia que estava à venda. Algumas peças mereceram mais destaque, como um PABX dos anos sessenta ou setenta, ainda usando chaves para transferência de ligações. O povo nem sabia o que era, mas ficou encantado. Tempo em que ainda se ligava e pedia "Telephonista, ligue-me com Doutor Peebles". Também levou mimos decorativos, além das tradicionais peças que sabe-se lá como ele consegue! Dizem que tem um verdadeiro museu em casa!

    Adentrei enquanto photographava os Fuscas do Volks Clube. A tenda dele estava lá, no meio dos tedescos, exibindo a organização minimalista e acolhedora de seus sócios. O clube tem o senso de civilidade de oferecer lixeiras com seu emblema, para que sócios e público não precisem enfiar seu lixo no bolso. E vejam os milagres do antigomobilismo! O povo evitava mesmo jogar seus lixinhos no chão ondulado de asfalto do Cepal!

    Desta vez houve música ao vivo. Beto Senador levou um amigo cantor e tivemos momentos com Jovem Guarda e clássicos italianos. Era uma cena pitoresca ver aquele senhor cantando em italiano bem diante dos Pumas, do Puma Clube, que foram inspirados na Alfa Romeu Spider dos anos sessenta e setenta. Não perderam seu brilho por haver três Corvettes logo ao lado. Nem o Fusca 1960 se acanhou diante deles, que dirá os atrevidos Pumas!

Fusca 1960

    Aliás, os três do acervo do CVAGO, presidido pelo Alexandre de Jesus. O clube é o organizador do evento e coordenador dos demais no local. A batuta da sócia Márcia garantiu um café diversificado, com quitandas, café e sucos, asegurando a presença precoce dos associados. Ela acertou em cheio, os sócios se aglomeraram e conversas animadas se deram ao redor da mesinha. Bem ao lado, o Thunderbird 1955 com kit continental, em que o estepe fica do lado de fora, mas sem a altura desnecessária dos cafonas SUVs.

Ford Model A 1929 (primeiro plano) e 1930
    O maior encanto de um evento assim, no entanto, é a presença maciça de famílias inteiras. As crianças corriam serelepes aos mais antigos, como o Ford A Two Door 1930 do Elísio, que para elas deve ter um aspecto de brinquedo... Não é totalmente fantasioso, 72km/h não fazem frente nem aos 155km/h da finada Kombi. Mas como ele e o Ford A Phaeton 1929 (Ford Bigode) em fase de restauração, ao seu lado, fizeram aqueles olhinhos brilharem! Não só as crianças, mas as moças também, fazendo lembrar a saudosa música do Roberto. Ambos, como deve ser com qualquer automóvel, andando normalmente, dando de ombros para o trânsito e os buracos das ruas.

A quem não conhece, esta é a Vespinha
    As Lambrettas e Vespas finalmente voltaram a freqüentar o encontro mensal. Fizeram falta com seu charme lúdico, quase pueril, e seus pipocantes motorzinhos dois tempos. Também pareciam ser de brinquedo, com suas linhas suaves e quase maternais, especialmente a pequena Vespa. Mal passando de 80km/h, podem facilmente ser entregues a um principiante. Além de suas carenagens e posição de dirigir, sem um tanque no meio para obrigar a viajar montado, permitirem o uso de saias mais curtas sem sustos. Fora a existência do estepe e a facilidade para se trocar um pneu! Imaginei a amiga New em uma delas. Apesar do capricho, seus donos permitiram sem medo que os visitantes se sentassem nelas, para uma photo. Camaradagem faz parte do pacote, os sorrisos dos petizes também.

Opala de Luxo 1972
Zundapp
    Os opaleiros do Opala Gyn e Opaleiros de Goiânia também compareceram, animados e numerosos como sempre, exibindo o padrão de qualidade que a Chevrolet do Brasil um dia teve. Quando terminei de photographar um já raro e lindo Opala 1972 De Luxo, vermelho com teto de vinil, onde duas pequerruchas brincavam e conversavam na sala de estar que é o interior daquele carro, fui ao estacionamento e veio o simpático amigo Bariani puxar conversa.
Ele apareceu com sua belíssima e robusta Zundapp 1950, que deixou à disposição do público para apreciação detalhada. E haja tempo para apreciar tantos detalhes quase inexistentes nas motocicletas de hoje! Em vez de corrente, por exemplo, ela usa eixo cardã para a tração, como no Opala. A alemã chamou mais atenção da juventude do que as modernas e berradoras esportivas de dez mil rpm, que eram várias no estacionamento, naquele domingo. Mesmo roncando alto, na saída, foram ignoradas por quase todos os admiradores das antiguinhas.

Para quem tem saudades dos glamourosos motores V8, eles também estavam presentes, aos montes, tanto no CVAGO quanto no União V8, que voltou a ser regular nos encontros. O ronronar dos Mopar brasileiros encheu o ambiente, com a força bruta de quem não precisa de injeção eletrônica para empurrar um carro grande e pesado em reles marcha lenta.

    Havia ainda um rapaz expondo e vendendo miniaturas de boa qualidade e detalhismo, algumas raras no Brasil, mas também as populares e estranhas Hotweels, que venderam bem. Eu vi um pai coruja comprar duas de uma só vez. Vender bem, diga-se de
passagem, é um dos atrativos e motivos para os pequenos comerciantes prestigiarem eventos vintage e retrô como este. Mesmo com a boca livre nas tendas do CVAGO e do Volks Clube, quem foi vender lanches e acepipes não se arrependeu, mesmo os com carrinhos de picolé. Eles dividiam as atenções das crianças com os carros, as motocicletas e a memorabilia. Era como uma mini loja de brinquedos no evento, a garotada encheu os olhos. Lá precisei ter paciência, não se pode simplesmente dizer a uma criança para sair da frente de um brinquedo!

   Como há muito não acontecia, o evento foi bastante coeso. assim como a maioria chegou em horários bem próximos, a hora de terminar também foi bastante homogênea. Perto das treze horas as barracas estavam sendo desarmadas, os bólidos começavam a ir embora e as pessoas voltavam para casa. Estas, principalmente as crianças, com um monte de coisas boas para contar aos colegas na segunda-feira.

    Domingo, dia 27 de Abril, tem mais. Cepal do Setor Sul, a partir das nove horas. Entrada franca e sincera para os admiradores da cultura retrô e vintage.